A experiência de estar em uma cidade como Londres é única. Andar por suas ruas é extremamente inspirador, com tanto para se ver e se fazer e todos os tipos de pessoas passando. Mas as grandes cidades, ao mesmo tempo que potencializam as maravilhas do urbano, trazem à tona seus problemas com mais facilidade. Foi numa tarde caminhando pela Oxford Street que eu realmente senti o que era estar no meio de uma multidão. Ali, estar no meio do movimento não era uma opção, mas uma imposição.
Sufocada pelo ritmo da massa, não era possível fotografar. Entendi Engels, Simmel e Benjamin, falando sobre o esmagamento do humano nas grandes cidades. Passei meses tentando produzir um trabalho em vão. Mas eu queria, eu precisava, de alguma forma, encontrar uma maneira de falar daquelas coisas ignoradas na pressa do dia-a-dia, dar a elas uma voz, um significado.
Uma noite, caminhando na beira do Tâmisa, encontrei a solução. Neste horário, com as ruas vazias e silenciosas era possível interpretar a cidade, recriá-la. Morton já dizia que “Esta é a hora de ver Londres, de amar Londres, de fazer promessas para Londres, de rezar para Londres, de fazer súplicas a Londres; porque Londres agora, grotescamente, parece toda sua na solidão, por um momento em vinte e quatro horas inofensiva, incapaz de machucar ou abençoar... perdida em um sonho”.
Longe das multidões e da pressa cotidiana, a cidade adquire uma nova vida, diferente da sua existência diurna. Lugares comuns, facilmente ignorados à luz do sol, são transfigurados pela iluminação e se tornam cheios de possibilidades, como palcos vazios a espera do que está para acontecer. Era a melhor forma de focar nas coisas comuns e torná-las especiais.
Longe do tumulto, eu podia me relacionar com Londres em um outro nível, outro tempo. Agora era possível imaginar uma história para cada fisionomia, para cada cena. A luz dramática e a escuridão abrem espaço para a imaginação, transformando cada fotografia em uma ponte para um mundo fantástico, surreal...













